and a family that always calls me home.
and a sweet song.
Não o meu. O (do) outro.
Dez anos passaram, e eu lembro daquela noite melhor que minha mente velha e cansada podia suportar. Lembro do barulho do teu carro triturando a areia na porta da minha casa, da campainha antiga, que tocava engraçado. Lembro de não querer abrir, de pensar que se eu nunca mais te visse, isso nunca ia acabar. Isso, em que a gente sempre insistiu e sempre foi tão claro. Isso que me fazia sobrecarregar meus neurônios e meu fígado em dias alternados, mas que por alguns anos me fez rever todas as minhas certezas.
Lembro da força que você bateu a porta quando você gritou teus piores planos. Cruentos, venenosos, como se você quisesse cravar essa faca o mais fundo que você conseguisse. Como se teu desprezo não tivesse sido suficiente pra destroçar o que tinha sobrado da minha paz. Lembro dos teus olhos vermelhos, que provavelmente nem estavam vermelhos, mas é assim que eu lembro deles. Porque a única coisa que você tinha no rosto era fúria, era o resultado da soma de todos os pensamentos equivocados que você já teve na vida, plasmados numa cara que agora parecia tão diferente da tua.
E hoje, depois de dez anos, ainda tenho tuas coisas guardadas. Tuas fotos, tuas roupas, e essa coisa gigante que eu tenho dentro de mim, e que por mais que eu negue todos os dias, segue sendo tua. Todas essas coisas que você esqueceu aqui sem querer, e nunca mais reclamou.
Dez anos e eu nunca mais te vi. Nunca mais soube dos teus planos de mudar o mundo. Mas acho que você, sempre acostumado a ganhar, perdeu essa. Porque fora minha pele marcada, e esses fios brancos que insistem em aparecer, faz dez anos que meu mundo segue o mesmo.
Why must it drift away and die?
E a gente fica aqui esperando. Que faça sol, que você volte, que o barulho dessas buzinas de merda não me acordem de manhã cedo ou que aconteça um milagre, e mude nossa vida de uma vez só. Esperando que você chegue arrombando a porta e dizendo que eu sou a mulher da tua vida.
E fico sozinha, jogada nessa cama grande demais, contando os mosquitos do teto e fingindo que são estrelas. Fingindo que não sinto essa falta gigante que não cicatriza. Fingindo que talvez em outra dimensão em outro tempo em outro plano você está aqui. Fingindo que esses sonhos de merda que eu tenho toda noite, da gente feliz em algum lugar do mundo, não são uma tentativa doente de não te deixar ir.
Minha cabeça lateja de ressaca e de saudade. Lateja com meus demônios se vingando de mim por ter tentado afogá-los com o whisky que eu roubei do teu armário. Com tua voz no telefone antes de você desligar sem dizer tchau. É essa minha mania de lembrar de você o tempo todo. Ontem eu bebi fernet, porque é o que você tomaria se a gente deixasse de ser idiota e você tivesse comigo.
Porque deveríamos.
Não é você.
Eu tinha tudo isso. Uma casa imensa, essa gente, essa falta de cor. Essas almofadas gigantes que me separavam dessa euforia que sabe-se lá porque atinge as pessoas no verão. Eu tinha minha semana de tédio, meus fins de semana de sono e minha falta de esperança. Meus livros, meus filmes que eu sempre usei como roteiro de como sobreviver. Tinha a música, e muito menos de dez razões pra parecer nova se alguém precisasse. Eu tinha essa dor. Que na verdade nem era uma dor. Era só o movimento continuo em direção a nada, o caminho ritmado até o eu-não-sei-o-quê. E que? E quem poderia julgar? Nada é melhor que ruim. Melhor que desespero, depressão, raiva, ódio, melancolia, eu acho. Melhor que chegar e não ter lugar pra você.
E agora? A espuma tá toda espalhada no chão no meio de tanto sol nesse quarto antigo. E meu último travesseiro você me rouba toda noite enquanto me empurra e vira pra parede pra dormir até o mundo acabar. Já não distinguo dia ou noite, e só conheço urgência. E serenidade. E saudade. Meus espelhos tão todos quebrados mas dessa vez não é assim tão pesado. Porque minhas cicatrizes ainda estão no mesmo lugar de antes. Mas se você parece não se importar, por que eu deveria?
Nada é diferente. Tudo está exatamente no lugar que não deveria estar nunca. Eu estou.
[Guess we'll have to wait and see.]
E qual seria a diferença se eu tivesse deixado de lado a porra desse medo gigante, e tivesse dito na sua cara o que você sempre soube e nunca quis ouvir? O que mudaria na nossa vida? Na nossa não, na minha e na sua. Não me diga que foi supresa, porque você tava perto o tempo todo. Porque esse límite estúpido, criado pra evitar dramas e envolvimentos desnecessários só existia no plano da idéias, nas conversas tontas depois de tanto vinho e filosofia inútil. Aqui, no mundo real, a gente vivia de carne e sangue. De olhos, pernas, unhas, e essa falta que a gente fingia que ignorava.
Tem dia que eu acordo assim, sentindo falta..