quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Com a porra da tua vida você faz o que quiser.

Vai embora. Some daqui. Antes que a gente acabe com isso. Com tudo isso, comigo, contigo. Foge pra um canto qualquer desse mundo imenso. Vai pro Sri-Lanka, ou pra Malásia. Só sai daqui, agora, pra sempre. Não, pra sempre não. Pra sempre é tempo demais. Mas vai. Por favor, vai. Enfia toda essa merda em uma mochila e vai. Me manda um postal, uma foto, de longe, de muito longe. De algum lugar que a gente pensa que não existe de tão longe. Que a gente não precise dessas conversas vazias, dessas noites de tv e vinho barato. Muda a sua vida, e deixa a minha. Deixa a minha em paz. Me deixa viver com a dor, o vazio, o medo, a insegurança, o desespero. Com o whiskey, o maço de cigarros e essa porra desse livro de auto-ajuda aberto. Mas me deixa. Me deixa sem seu drama, sem esse discurso comprado sobre tudo, sem esse monte de merda que você inventa pra se sentir melhor, ou pior, sei lá. Sem o que não existe faz tempo e a gente fica aqui, levando. Me deixa com minha saia de puta, com meu cabelo tingido. Para de prometer que vem, que fica, que me ama. Entende, eu não quero amor, nem compreensão, nem nada. Eu só quero paz. Só quero ficar sozinha com essa dor que é só minha.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Não é dor não, moço. É só saudade.

Tem dia que eu acordo assim, sentindo falta..


Minha janela sempre aberta me acorda cedinho, com um sol assim meio cinza, as árvores secas e amarelas, balançando de leve nesse inverno cruel do sul da América do Sul. Não tão sul, e não tão cruel. Só inverno. Só longe. Só cheio de saudade.

Cheio de saudade das manhãs que o sol me acordava sem pena, pelas frestas da cortina da janela do ônibus, enquanto eu atravessava com sono e com pressa o Rio de Janeiro. Todos os dias. Eu ficava assim meio acordada, olhando as bicicletas, as pessoas tão acostumadas a passar, acostumadas ao sol, a areia, a buzina.

Sabia que um dia, talvez muito tempo depois, eu ia olhar a janela procurando o Cristo Redentor iluminado no calor de mais de 40°C. Ou a praia de Botafogo cheia de gente molhada quando a chuva vinha ligeira. Então eu aproveitava quietinha de dentro do meu ônibus com o ar condicionado no insuportável, pra manter homeostático o corpo dos executivos e advogados dentro de seus ternos e terninhos, a caminho de seus escritórios no centro da cidade. Eu sorria sozinha. Sorria dentro da minha saia indiana, caminhando pro melhor-trabalho-do-mundo. Imaginando o calor que ia sentir no concerto a noitinha no salão sem ventilador.

Eu sabia que em cada barco que eu pisasse eu ia procurar a fila, a gente. A barraquinha pra comprar dez pães de queijo por um real. Eu ia olhar na janela e procurar se afastando a praça, o paço, as torrezinhas de tantas igrejas concentradas num lugar só. Ou a gente colorida do carnaval da Praça XV. A barca lotada de arlequinas, noivas, palhaços, negas-malucas. A música alta do palco de domingo-de-carnaval.

E ia contar da Lapa, dos Arcos, e da gente toda diferente, toda bonita e de todo o jeito que a gente encontra por lá. Do centro turbulento, sujo, de gente de verdade. Dos bolivianos (ou peruanos?) que tocavam flauta no Largo da frente, da Ouvidor, das propagandas da rádio Saara. Da energia que a gente roubava pra fazer nossos sambas numa praça esquecida nos fundos do prédio. Porque a gente andava sem medo, sambava, se encontrava, de noite, nos dias de folga, nas sextas-feiras de tarde quando ninguém ia pra aula pra ficar cantando junto com a velha juke box do Bar das Putas. Esperando o fim do expediente. Esperando pra chegar na Luis de Camões, ali perto da Tiradentes. Tão perigoso, tão escuro. Tão nossa casa.

É de onde eu venho, moço. E pra onde eu sempre vou querer voltar. Pra fevereiro e março, pra Realengo, praquele abraço.





quinta-feira, 9 de junho de 2011

Minha história, meu primeiro amigo.

Há dois anos e cinco meses eu tive um dos dias mais tristes da minha vida.

Eu lembro melhor daquele dia do que de anos da minha vida. Depois de uma campanha apática no campeonato brasileiro, o grande Vasco da Gama caia, pela primeira vez em sua história, para a segunda divisão do futebol nacional. Lembro de ter sentido raiva durante uns 80 minutos daquele Vasco e Vitória disputado em São Januário. Lembro da voz do locutor, e da vontade que eu tive de entrar em campo e gritar com aqueles jogadores que corriam sem direção, parecendo não compreender a importância da camisa que vestiam.
Meu ódio durou até os últimos 10 minutos, até que a queda se tornou uma realidade palpável até pros mais otimistas, até que embalado pelos lamentos do locutor, apareceu a imagem do Pedrinho, meu eterno ídolo da seleção vascaína de 98, chorando. Eu desisti da tv. Me pendurei na janela, com minha camisa 10, eternizada pelo Edmundo, e chorei. Pela primeira vez, desde que eu me entedia por gente, eu chorei pelo Vasco da Gama.

E posso dizer com bastante certeza que eu já era vascaína antes de saber que era gente. Lembro de ganhar minha primeira camisa do Vasco com 6 anos, e de assistir no final de 1997 a despedida do Edmundo pro Fiorentina, na mesma festa que sagrava meu time Campeão Brasileiro. Lembro de deixar minhas amiguinhas sozinhas brincando e correr pra casa pra ver o Vasco jogar a Libertadores em 98, e assistir os jogos explicando pros meus avós os números da camisa e a posição de cada jogador. Lembro daquela noite histórica em 2000, quando depois do terceiro gol do Palmeiras minha mãe me mandou dormir, e eu disse que não ia, porque Vasco ia ser campeão. E nós fomos campeões, de virada, e em pleno Palestra Itália. E hoje, quando me perguntam sobre meus ídolos de infância, me vem logo a mente as imagens do Juninho Pernambucano chorando com essa copa na mão, do Romário correndo quase abraçado com o Juninho Paulista pedindo silêncio depois do quarto gol. Do Mauro Galvão, do Felipe, do Pedrinho, do Helton, do Edmundo, do Carlos Germano.

Hoje, catorze anos depois da primeira final que eu vi o Vasco ganhar, eu posso dizer que vivo um dos dias mais felizes da minha vida. Morando na Argentina e sozinha em casa, eu vi pela internet, o Vasco mais uma vez ser campeão. E dessa vez foi especial. Porque depois de anos sem grandes títulos, de uma queda, e um retorno da série B, de xingar, sofrer, gritar, o canto de Campeão ecoou mais uma vez. O meu canto, e o dos milhões de vascaínos espalhados nesse mundo. Hoje, cada um de nós tem um sorriso bobo estampado na cara, e uma cruz de malta brilhando no peito. E mesmo que ninguém entenda, nós somos vascaínos, guerreiros, torcedores, apaixonados. Orgulhosos.

Eu tive minhas maiores tristezas pelo Vaasco da Gama. Mas também foi ele que me deu minhas maiores alegrias. E preciso te contar, o nosso saldo de alegrias é muito maior..

quinta-feira, 26 de maio de 2011

a gente recupera.

Não olha pra trás, e vai.

Assim sem despedidas, sem lágrimas, sem dramas. Sem pensar no que poderia ser se você decidisse ficar.
Porque você decidiu ir.

Não se preocupa comigo.
Nossos traumas são diferentes, eu soube disso desde a primeira vez que eu te vi.
Você tem medo, eu tenho pressa.

Coloca logo essa mochila nas costas, e vai.
Seu ônibus já vai sair. E você vai passar todas essas horas pensando no dia que você vai voltar.
Mas você não vai. Você decidiu não voltar.
E vai doer. Mas a estrada vai te fazer forte.
E em alguns meses tua vida vai ser a mesma de antes.

Sobe nesse ônibus e abre a janela
E me diz o monte de coisas que você sempre achou que nunca ia falar pra uma garota.
Porque é tudo verdade. Porque se você vai, nada acaba.
A gente suspende o tempo e congela as coisas assim.
Me sorri e passa a mão no cabelo, do jeito engraçado que você sempre faz
Pra eu pensar por dois segundos que te vejo de novo.

Porque só assim eu prometo não te pedir pra ficar.


sábado, 23 de abril de 2011

laugh at the sun.

Eu só canto se for Sugar Town. Porque meu sotaque é engraçado, porque teus olhos ficam apertados e lindos com tanta luz no teu quarto escuro. E porque você ri. Ri da minha falta de preocupação, das minhas caras forçadas, do meu jeito meio bossa-nova e rock n' roll, da minha adoração pelas botas brancas da Nancy.
Eu só continuo porque toda manhã o sol nasce com minha risada. E com teu sorriso torto, de quando eu não entendo uma palavra do que dizes. Porque amo o teu imenso esforço em me fazer rir, só pra dizer que ficaria rico se pudesse vender meu sorriso.
Eu fico porque a gente tem mil planos. E nenhuma pretensão. E nem que eu reinventasse o acaso, eu conseguiria contar nossa história. Por que ela só existe nas madrugadas em claro, no toque que não existe, dos olhos que se veem sem de fato se encontrar.

Eu já vivo a minha primavera. Nada mais tem que dar certo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mentira.

Eu sinto tanto a tua falta.

Mentira.

Sinto falta de mim.
Sinto falta do meu sorriso quando te via. Da minhas mãos geladas, do meu peito arfante.. Sinto falta de ver teus olhos, quando tanto tempo depois, me viam de novo.

Sinto falta do nosso dia, congelado naquela noite, ao som de uma banda [não tão] qualquer. Era setembro, e eu era sua mulher.

Sempre te vejo. Mas sinto falta. Não de ti. Sinto falta da ansiedade que sentia quando te via há tempos atrás. Faz tanto tempo, e nunca existiu ninguém que não você.

Sinto falta da nossa história. A história que foi contada tantas vezes e se perdeu nas nossas tentativas de torná-la real. Se esvaiu nas pessoas que encontramos no caminho.


Não é você, sou eu.
A desculpa de toda grande história de amor quando o amor acaba.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Talvez a última.

A última vez que eu te vi, não foi na verdade a última. Mas nós sabíamos que era o fim. Ninguém falou sobre isso, e muito ao contrário, sorríamos e não pensávamos. Só sabíamos, mas isso não fazia mal, nem era triste. Era só como tinha que ser.

A última vez que te vi, não a última realmente, esquecemos que tinha um mundo para além dos limites que imaginamos. Mas quem se importa? Fugimos do calor primaveril do Rio de Janeiro, andamos de mãos dadas na chuva, ficamos horas falando bobagem. Todos olhavam sorrindo, mas nós sabíamos. Só nós. Em cada abraço, em cada copo, o gosto de despedida era mais forte. Mas isso não era importante.

A última vez que te vi, ou a penúltima, você salvou minha vida. Mas e daí? Isso não é um privilégio seu. Eu constantemente preciso de alguém pra me tirar da poeira e dos cacos onde insisto em me enfiar. Eu só te salvei do tédio. Salvei tua semana da rotina casa-trabalho-computador.

A última vez que eu te vi, ou talvez não tenha sido a última, foi sem querer. Assim como foi sem querer o querer e o não-querer. Era amor, entrega, carinho. De verdade. Mas com prazo pra vencer. Era a dança de uma valsa só, que encanta, alegra e acaba. Ninguém imaginava. Mas nós sempre soubemos.




Não há mal pior do que a descrença. Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão. [Como dizia o poeta - Toquinho e Vinícius]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sobre ser feliz.

Ninguém é feliz sozinho.

Não porque somos seres sociais, que devem viver em comunidade ou algo assim.
Não somos felizes sozinhos porque somos confusos, cheios de imperfeições e altamente falhos. E viver sozinho pressupõe que suportamos de bom grado a nossa própria companhia. E nós não suportamos.

A felicidade só existe quando alguém te ouve pacientemente confessar sua vida medíocre, seus erros e defeitos e te ainda assim te olha com afeição. E te abraça como se o mundo acabasse ali, assim, sem um motivo aparente.


É preciso se preocupar mais com outro alguém do que com você pra se sentir inteiro. Ou com outros alguéns. Querer proteger, aceitar escolhas e caminhos diferentes. Mesmo que a distância exija algum esforço. Ser feliz é saber que estão felizes, e só.

Porque, de qualquer jeito, o mundo é grande, e as lembranças não morrem.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Eu menti pra você.

Por favor, não me culpa. Eu minto pra mim todos os dias. Não por querer, mas por ser várias em um só corpo. Uma reunião de impulsos nervosos compartilhados por várias almas.

Desculpa se exagero, mas tudo isso faz com que eu sinta demais, que eu fale demais, que eu seja demais. E somo a isso minha irresponsabilidade, minha impulsividade escondida pra não te afastar.

E não quero te afastar.

Eu não sei porque, nem o que é.
Mas existe. E me anima a existência nos dias quentes do Rio de Janeiro.

Só peço que fique. Sem nenhum motivo, sem nenhuma certeza.
E não fica com medo. Eu só machuco a mim mesma.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Não-eu.

Eu me olho no espelho, e não reconheço o reflexo.

Eu sinto vergonha. E urgência.

Todos os meus planos foram consumidos pela rotina, pelo cotidiano de interesses próprios. Interesses que não me alimentam, não me satisfazem de maneira nenhuma. E a pessoa que eu brigava com o mundo pra ser há alguns anos atrás, desapareceu completamente.

Eu não me reconheço.

A minha força era a minha carne nova, incólume no meio desse mundo cão. E hoje sou só a lembrança, o armário cheio de poeira e memória que ninguém abre mais. Não penso, não sonho, não quero. Só acordo e continuo o que acho que é a vida.

Tenho medo. Medo de estar só, ou de querer estar só.

Mas se o passado não existe mais, as pessoas voltam. Elas lembram. E me espancam a cara por eu estar entregue. E destroem cada pedaço da minha paz. Me obrigam a sair de casa, viver o mundo. Me fazem ter vergonha. Fazem eu me sentir sozinha e estúpida.

Tenho vontade de sair.

Sair da vida, sair do mundo. Ressusitar.