terça-feira, 6 de novembro de 2012

Nem você, nem eu.

Não é você.

Obviamente não é você.
É só insônia, e dor de estômago. E medo. Ah, grande coisa. Como seu eu existisse sem esse medo gigante, ou como se algum dia eu tivesse tido um sono tranquilo e regular. Não.
Não é a lembrança das tuas mãos quentes nesse inverno de merda que nunca acaba. Nem o telefone que não toca, ou toda essa gente que entra e sai dessa casa, e que nunca é você. Não é seu desprezo, seu desinteresse. Nem a porta fechada que existe entre a gente, entre o que sobrou do que "um dia podíamos chegar a ter sido". Não é o seu cheiro nas minhas roupas. É só minha cabeça, pensando demais, querendo demais. Minha ânsia em te ter aqui, em te obrigar a voltar, em gritar na varanda essa falta que eu sinto. Não, não é você.

É só solidão. Só coisa que eu invento sozinha pra encher esse vazio tão óbvio. Pra encher esse quarto tão cheio de você. Não, não é você. Cheio só de invenções minhas. De desejos, de vontades, de distâncias, que nem sempre são físicas, mas que nunca diminuem.


sábado, 29 de setembro de 2012

Long cold lonely winter.


Você nunca respondeu minha mensagem. A gente tava planejando uma viagem junto, lembra? Uma viagem não, uma visita. Você ia aproveitar essa greve louca pra vir sentir frio do lado de cá. E pra gente falar da vida, botar uns sambas loucos pra tocar e fingir que tava no Rio que a gente aprendeu junto a amar. Fingir que era carnaval, e que a gente tava de férias (férias simuladas pra tu que gostava de lembrar que era da classe proletária). Por aí a gente ia falar de política. Falar, porque contigo eu não discutia. Engraçado, né? Logo a gente que discutia com todo mundo..

E daí tu resolveu largar a gente. Me obrigou a voltar, sem estar lá. E nossos problemas, exaustivamente discutidos nas noites insuportavelmente quentes de Niterói, deixaram de fazer o menor sentido. Muita coisa deixou de fazer sentido. Qual é o samba que toca agora? Porque a verdade é que eu tenho medo de ter férias. Medo de esperar você ligar pra me levar pro Blues de Quarta Feira. Porque eu sei que eu vou esperar. E vou ter que me contentar com a lembrança do verão passado. Do carnaval passado, dos anos passados. Do passado. Dessa lembrança que não era lembrança até essa ser a única opção. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Entressafra.

Eu tinha tudo isso. Uma casa imensa, essa gente, essa falta de cor. Essas almofadas gigantes que me separavam dessa euforia que sabe-se lá porque atinge as pessoas no verão. Eu tinha minha semana de tédio, meus fins de semana de sono e minha falta de esperança. Meus livros, meus filmes que eu sempre usei como roteiro de como sobreviver. Tinha a música, e muito menos de dez razões pra parecer nova se alguém precisasse. Eu tinha essa dor. Que na verdade nem era uma dor. Era só o movimento continuo em direção a nada, o caminho ritmado até o eu-não-sei-o-quê. E que? E quem poderia julgar? Nada é melhor que ruim. Melhor que desespero, depressão, raiva, ódio, melancolia, eu acho. Melhor que chegar e não ter lugar pra você.

E agora? A espuma tá toda espalhada no chão no meio de tanto sol nesse quarto antigo. E meu último travesseiro você me rouba toda noite enquanto me empurra e vira pra parede pra dormir até o mundo acabar. Já não distinguo dia ou noite, e só conheço urgência. E serenidade. E saudade. Meus espelhos tão todos quebrados mas dessa vez não é assim tão pesado. Porque minhas cicatrizes ainda estão no mesmo lugar de antes. Mas se você parece não se importar, por que eu deveria?

Nada é diferente. Tudo está exatamente no lugar que não deveria estar nunca. Eu estou.


[Guess we'll have to wait and see.]

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Neuquen.

E qual seria a diferença se eu tivesse deixado de lado a porra desse medo gigante, e tivesse dito na sua cara o que você sempre soube e nunca quis ouvir? O que mudaria na nossa vida? Na nossa não, na minha e na sua. Não me diga que foi supresa, porque você tava perto o tempo todo. Porque esse límite estúpido, criado pra evitar dramas e envolvimentos desnecessários só existia no plano da idéias, nas conversas tontas depois de tanto vinho e filosofia inútil. Aqui, no mundo real, a gente vivia de carne e sangue. De olhos, pernas, unhas, e essa falta que a gente fingia que ignorava.


E como é jogar nas minhas costas toda a culpa, como se eu tivesse vivido sozinha todos esses últimos anos? Como se eu fosse a traidora desse movimento que você nunca reivindicou. Você sabe que só nos sobraram as palavras não ditas, os sorrisos e silêncios reinterpretados várias vezes, até se esgotarem por si só. Você sempre soube que eu não tava esperando. Mas você também não veio.

Você não me odeia. Você sabe disso.




quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Com a porra da tua vida você faz o que quiser.

Vai embora. Some daqui. Antes que a gente acabe com isso. Com tudo isso, comigo, contigo. Foge pra um canto qualquer desse mundo imenso. Vai pro Sri-Lanka, ou pra Malásia. Só sai daqui, agora, pra sempre. Não, pra sempre não. Pra sempre é tempo demais. Mas vai. Por favor, vai. Enfia toda essa merda em uma mochila e vai. Me manda um postal, uma foto, de longe, de muito longe. De algum lugar que a gente pensa que não existe de tão longe. Que a gente não precise dessas conversas vazias, dessas noites de tv e vinho barato. Muda a sua vida, e deixa a minha. Deixa a minha em paz. Me deixa viver com a dor, o vazio, o medo, a insegurança, o desespero. Com o whiskey, o maço de cigarros e essa porra desse livro de auto-ajuda aberto. Mas me deixa. Me deixa sem seu drama, sem esse discurso comprado sobre tudo, sem esse monte de merda que você inventa pra se sentir melhor, ou pior, sei lá. Sem o que não existe faz tempo e a gente fica aqui, levando. Me deixa com minha saia de puta, com meu cabelo tingido. Para de prometer que vem, que fica, que me ama. Entende, eu não quero amor, nem compreensão, nem nada. Eu só quero paz. Só quero ficar sozinha com essa dor que é só minha.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Não é dor não, moço. É só saudade.

Tem dia que eu acordo assim, sentindo falta..


Minha janela sempre aberta me acorda cedinho, com um sol assim meio cinza, as árvores secas e amarelas, balançando de leve nesse inverno cruel do sul da América do Sul. Não tão sul, e não tão cruel. Só inverno. Só longe. Só cheio de saudade.

Cheio de saudade das manhãs que o sol me acordava sem pena, pelas frestas da cortina da janela do ônibus, enquanto eu atravessava com sono e com pressa o Rio de Janeiro. Todos os dias. Eu ficava assim meio acordada, olhando as bicicletas, as pessoas tão acostumadas a passar, acostumadas ao sol, a areia, a buzina.

Sabia que um dia, talvez muito tempo depois, eu ia olhar a janela procurando o Cristo Redentor iluminado no calor de mais de 40°C. Ou a praia de Botafogo cheia de gente molhada quando a chuva vinha ligeira. Então eu aproveitava quietinha de dentro do meu ônibus com o ar condicionado no insuportável, pra manter homeostático o corpo dos executivos e advogados dentro de seus ternos e terninhos, a caminho de seus escritórios no centro da cidade. Eu sorria sozinha. Sorria dentro da minha saia indiana, caminhando pro melhor-trabalho-do-mundo. Imaginando o calor que ia sentir no concerto a noitinha no salão sem ventilador.

Eu sabia que em cada barco que eu pisasse eu ia procurar a fila, a gente. A barraquinha pra comprar dez pães de queijo por um real. Eu ia olhar na janela e procurar se afastando a praça, o paço, as torrezinhas de tantas igrejas concentradas num lugar só. Ou a gente colorida do carnaval da Praça XV. A barca lotada de arlequinas, noivas, palhaços, negas-malucas. A música alta do palco de domingo-de-carnaval.

E ia contar da Lapa, dos Arcos, e da gente toda diferente, toda bonita e de todo o jeito que a gente encontra por lá. Do centro turbulento, sujo, de gente de verdade. Dos bolivianos (ou peruanos?) que tocavam flauta no Largo da frente, da Ouvidor, das propagandas da rádio Saara. Da energia que a gente roubava pra fazer nossos sambas numa praça esquecida nos fundos do prédio. Porque a gente andava sem medo, sambava, se encontrava, de noite, nos dias de folga, nas sextas-feiras de tarde quando ninguém ia pra aula pra ficar cantando junto com a velha juke box do Bar das Putas. Esperando o fim do expediente. Esperando pra chegar na Luis de Camões, ali perto da Tiradentes. Tão perigoso, tão escuro. Tão nossa casa.

É de onde eu venho, moço. E pra onde eu sempre vou querer voltar. Pra fevereiro e março, pra Realengo, praquele abraço.





quinta-feira, 9 de junho de 2011

Minha história, meu primeiro amigo.

Há dois anos e cinco meses eu tive um dos dias mais tristes da minha vida.

Eu lembro melhor daquele dia do que de anos da minha vida. Depois de uma campanha apática no campeonato brasileiro, o grande Vasco da Gama caia, pela primeira vez em sua história, para a segunda divisão do futebol nacional. Lembro de ter sentido raiva durante uns 80 minutos daquele Vasco e Vitória disputado em São Januário. Lembro da voz do locutor, e da vontade que eu tive de entrar em campo e gritar com aqueles jogadores que corriam sem direção, parecendo não compreender a importância da camisa que vestiam.
Meu ódio durou até os últimos 10 minutos, até que a queda se tornou uma realidade palpável até pros mais otimistas, até que embalado pelos lamentos do locutor, apareceu a imagem do Pedrinho, meu eterno ídolo da seleção vascaína de 98, chorando. Eu desisti da tv. Me pendurei na janela, com minha camisa 10, eternizada pelo Edmundo, e chorei. Pela primeira vez, desde que eu me entedia por gente, eu chorei pelo Vasco da Gama.

E posso dizer com bastante certeza que eu já era vascaína antes de saber que era gente. Lembro de ganhar minha primeira camisa do Vasco com 6 anos, e de assistir no final de 1997 a despedida do Edmundo pro Fiorentina, na mesma festa que sagrava meu time Campeão Brasileiro. Lembro de deixar minhas amiguinhas sozinhas brincando e correr pra casa pra ver o Vasco jogar a Libertadores em 98, e assistir os jogos explicando pros meus avós os números da camisa e a posição de cada jogador. Lembro daquela noite histórica em 2000, quando depois do terceiro gol do Palmeiras minha mãe me mandou dormir, e eu disse que não ia, porque Vasco ia ser campeão. E nós fomos campeões, de virada, e em pleno Palestra Itália. E hoje, quando me perguntam sobre meus ídolos de infância, me vem logo a mente as imagens do Juninho Pernambucano chorando com essa copa na mão, do Romário correndo quase abraçado com o Juninho Paulista pedindo silêncio depois do quarto gol. Do Mauro Galvão, do Felipe, do Pedrinho, do Helton, do Edmundo, do Carlos Germano.

Hoje, catorze anos depois da primeira final que eu vi o Vasco ganhar, eu posso dizer que vivo um dos dias mais felizes da minha vida. Morando na Argentina e sozinha em casa, eu vi pela internet, o Vasco mais uma vez ser campeão. E dessa vez foi especial. Porque depois de anos sem grandes títulos, de uma queda, e um retorno da série B, de xingar, sofrer, gritar, o canto de Campeão ecoou mais uma vez. O meu canto, e o dos milhões de vascaínos espalhados nesse mundo. Hoje, cada um de nós tem um sorriso bobo estampado na cara, e uma cruz de malta brilhando no peito. E mesmo que ninguém entenda, nós somos vascaínos, guerreiros, torcedores, apaixonados. Orgulhosos.

Eu tive minhas maiores tristezas pelo Vaasco da Gama. Mas também foi ele que me deu minhas maiores alegrias. E preciso te contar, o nosso saldo de alegrias é muito maior..

quinta-feira, 26 de maio de 2011

a gente recupera.

Não olha pra trás, e vai.

Assim sem despedidas, sem lágrimas, sem dramas. Sem pensar no que poderia ser se você decidisse ficar.
Porque você decidiu ir.

Não se preocupa comigo.
Nossos traumas são diferentes, eu soube disso desde a primeira vez que eu te vi.
Você tem medo, eu tenho pressa.

Coloca logo essa mochila nas costas, e vai.
Seu ônibus já vai sair. E você vai passar todas essas horas pensando no dia que você vai voltar.
Mas você não vai. Você decidiu não voltar.
E vai doer. Mas a estrada vai te fazer forte.
E em alguns meses tua vida vai ser a mesma de antes.

Sobe nesse ônibus e abre a janela
E me diz o monte de coisas que você sempre achou que nunca ia falar pra uma garota.
Porque é tudo verdade. Porque se você vai, nada acaba.
A gente suspende o tempo e congela as coisas assim.
Me sorri e passa a mão no cabelo, do jeito engraçado que você sempre faz
Pra eu pensar por dois segundos que te vejo de novo.

Porque só assim eu prometo não te pedir pra ficar.


sábado, 23 de abril de 2011

laugh at the sun.

Eu só canto se for Sugar Town. Porque meu sotaque é engraçado, porque teus olhos ficam apertados e lindos com tanta luz no teu quarto escuro. E porque você ri. Ri da minha falta de preocupação, das minhas caras forçadas, do meu jeito meio bossa-nova e rock n' roll, da minha adoração pelas botas brancas da Nancy.
Eu só continuo porque toda manhã o sol nasce com minha risada. E com teu sorriso torto, de quando eu não entendo uma palavra do que dizes. Porque amo o teu imenso esforço em me fazer rir, só pra dizer que ficaria rico se pudesse vender meu sorriso.
Eu fico porque a gente tem mil planos. E nenhuma pretensão. E nem que eu reinventasse o acaso, eu conseguiria contar nossa história. Por que ela só existe nas madrugadas em claro, no toque que não existe, dos olhos que se veem sem de fato se encontrar.

Eu já vivo a minha primavera. Nada mais tem que dar certo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mentira.

Eu sinto tanto a tua falta.

Mentira.

Sinto falta de mim.
Sinto falta do meu sorriso quando te via. Da minhas mãos geladas, do meu peito arfante.. Sinto falta de ver teus olhos, quando tanto tempo depois, me viam de novo.

Sinto falta do nosso dia, congelado naquela noite, ao som de uma banda [não tão] qualquer. Era setembro, e eu era sua mulher.

Sempre te vejo. Mas sinto falta. Não de ti. Sinto falta da ansiedade que sentia quando te via há tempos atrás. Faz tanto tempo, e nunca existiu ninguém que não você.

Sinto falta da nossa história. A história que foi contada tantas vezes e se perdeu nas nossas tentativas de torná-la real. Se esvaiu nas pessoas que encontramos no caminho.


Não é você, sou eu.
A desculpa de toda grande história de amor quando o amor acaba.